“Se os tubarões fossem homens, será que eles seriam mais gentis com os peixinhos?, pergunta a criança ao Sr. K.
A pergunta, lançada no miniconto que o grupo Buia Teatro Company adaptou para o teatro, faz parte de um repertório grande de provocações teóricas e políticas em forma de textos curtos, pequenas intervenções e parábolas feitas por Brecht nos seus últimos trinta anos de vida. No Brasil o texto foi publicado no volume Histórias do Sr. Keuner (Ed. 34, trad. Paulo Cesar de Souza). Mais recentemente foi publicado como literatura infantil (Ed. Olho de vidro), com a tradução de Christine Röhrig que o grupo amazonense usa na montagem.
O texto brechtiano não foi escrito especialmente para a leitura das crianças, mas é curioso como, de fato, serve perfeitamente à audição dos pequenos. É curioso mas se pensarmos bem, não surpreende. Como todo bom materialista, Brecht não fez política com outro objetivo que não seja, do ponto de vista da finalidade do discurso, ser compreendido. A visão material que tinha das relações concretas entre as pessoas no mundo ajuda nisso e, no limite, com tal clareza que eventualmente pode ser lido até por uma criança. É o caso.
Tal pedagogia, no entanto, não significa didatismo carola. O prazer está não em apenas descrever os problemas da convivência, das injustiças sociais, e dar lições sobre como resolvê-los, e sim em colocá-los à vista de forma crítica, para que o leitor intervenha ele mesmo. Para Brecht não existe pedagogia sem pensamento e tomada de atitude.
Em Bertoldo – O Tubarão Que Queria Ser Gente o Buia entende esses pressupostos gerais. A peça não é uma encenação do texto original, é uma adaptação que já no início lança aquela pergunta e então mobiliza a cena para investigá-la através das narrativas e embates entre as personagens. O grupo manauara fez o dever de casa e cumpre, do ponto de vista das soluções cênicas, vários dos protocolos brechtianos: a abertura para a plateia, tomada como parceira de trabalho e construção; a desmistificação dos papéis, com atores e atrizes discutindo preferências sobre o que gostariam de representar; a cenografia nada volumosa, como que a evitar concorrência com o mais importante, a discussão de ideias; o uso de objetos animados, mas sem truques de ilusão. A montagem é dinâmica e evolui entre os debates acalorados e os cortes feitos com intervenções musicais – outro procedimento que facilita as idas e voltas à questão do início sem deixar a fábula cair no esquematismo.
Apesar da aparente simplicidade o universo de questões e soluções pensado por Brecht é escorregadio. Não que apresente grandes dificuldades para a compreensão, mas porque, iluminados os pontos de chegada, é preciso construir o caminho até ele, que não está dado. Este desafio não é só do Buia, é de todo grupo teatral que queira criar sob a influência brechtiana. Não vamos tratar aqui do que, nesta poética, esterilizou-se – o próprio Brecht previa isso e, de fato, os formidáveis recursos desenvolvidos pelo universo da propaganda capitalista abocanhou, tornou praticamente inútil, por exemplo, uma boa parte dos exercícios de distanciamento.
Sem entrar no mérito das “derrotas” gerais já esperada, vamos seguir no que propõe o espetáculo.
“Nunca mais fazer guerra”, é grasse recorrente na peça, tratada no espetáculo de maneira perigosa porque não se aproxima do X da questão no aspecto particular que interessa: o da exploração entre classes. Na montagem o tema da guerra aparece sublinhado quase que como um manifesto pacifista, algo em tudo estranho a um autor materialista dialético, que fez de tudo para tratar o processo social por fora do campo meramente moral. Para Brecht o problema da guerra não é apenas que nela morrem os peixinhos ideologizados e manipulados pelos tubarões. O problema é que a razão da guerra é o capital. O exemplo mais acabado disso talvez esteja em Mãe coragem e seus filhos, em que a guerra é mostrada antes de tudo como um negócio. Um empreendimento mercantil lucrativo e brutal. Essa dimensão se dilui na montagem. E faz diferença. Não porque o grupo precisa seguir algum tipo de cartilha, mas porque, sim, trata-se de algo essencial à abordagem do tema, sem o que Bertoldo não será Bertoldo.
Curiosamente, quando o espetáculo foi apresentado no teatro do SESI, o teatro da Fiesp – a Federação das indústrias do Estado de São Paulo, qual seja, o quartel geral dos tubarões brasileiros, a sinopse de chamada vinha com estas palavras: Brecht foi um autor que “sempre se posicionou contra o nazismo e, sobretudo, o autoritarismo e a opressão”. E quem vai discutir uma generalidade desse tipo, não é? Muitos tubarões de direita gostam de dizer que são contra a opressão, desde que não se discuta a distribuição das rendas. Mas, não é só. Na sequência vem a parte mais interessante: “Contudo, o principal motivo pelo qual seus escritos continuam despertando interesse e admiração está no fato de eles revelarem as profundezas da alma humana”. Bem, aí já estamos no campo da mentira. O que Brecht ambicionou foi desmascarar as profundezas da exploração e subjugação sob o capital e as possibilidades de sua superação, o que pouco tem a ver com a “alma humana”, coisa que poderemos discutir depois, quando a sociedade estiver constituída por iguais.
Ao tratar do tema da guerra como um plano de superação em abstrato, como desejo de superação colocado na ordem do bom sentimento, é um pouco neste caminho que o espetáculo caminha. Contraditoriamente, para a boca do tubarão.
Por outro lado, vivas ao Buia por ter preservado o sentido mais indispensável do conto, em termos de operação linguística. Ainda que salvo engano o espetáculo demore um pouco demais a entrar no centro das questões(a primeira parte parece uma preparação muito alongada), quando a discussão começa aparece bem amparada no discurso irônico. É o fundamental deste texto. A ironia é um gesto intencionado, uma forma de fala que pede para ser entendida não a partir do que aparentemente se diz, mas no avesso do que se diz. No caso de Brecht é um dos procedimentos mais recorrentes em toda a sua obra e ganha status de arte, a depender das circunstâncias em torno das quais o irônico trabalha. A ironia não é apenas recurso de linguagem. Contribui para a dialética, ou seja, não apenas aponta um problema e o seu duplo, coloca o problema em movimento vivo, a provocar racionalmente o pensamento e a tomada de atitudes.
A ironia não existe sem ponto de vista. Daí a pergunta: mas, então, no espetáculo quem é que lança a ironia? Se no conto de Brecht o emissor está bem indicado (o Sr. Keuner), na adaptação e na montagem do Buia ela vem do próprio coletivo que representa a fábula. A própria encenação, coral, daquela forma arranjada por eles, é a emissária do discurso irônico. “A terra é redonda e sempre gira”, diz-se (em uma canção?). Esta sim, é uma muito boa imagem, e é uma atualização irônica que como sabemos diz muito sobre o Brasil e sobre o mundo atual. Quando Brecht escreveu A vida de Galileu certamente não imaginou o retrocesso que viveríamos no futuro.
Sim, “Tanta coisa a fazer”… Por isso, “Peixinhos de todo o mundo, uni-vos”, é como a coisa termina, já com a plateia totalmente aderida. É uma convocação que instala o sentimento da solidariedade ampliada que interessa.
Nadando entre a luta de classes, a moral ideológica dos tubarões e a necessidade de encontrar o mar mais profundo não do dualismo, mas da dialética, o Buia teatro reuniu crianças e adultos diante de provocações essenciais. Abraços ao Amazonas. Muito bem ver espetáculos do Norte circulando sem precisar apresentar-se como cena regional.
Bertoldo – o tubarão que queria ser gente foi apresentado no dia 15 de Novembro de 2025 no Teatro Municipal de Primavera do Leste, na programação do 19º. Festival Velha Joana
Elenco: Dimas de Mendonça Oliveira, Cleiton Diirr de Matos, Maria Antonia Correa Hagge, Arnaldo Barreto Alves
Diretor/Produção: Tecio Pereira da Silva
Maestro/Músico: Elton Nogueira Franco
Iluminador/Operador de Luz: Orlando Schaider Brum